Na continuação dos programas curatoriais desenvolvidos por Dinis Machado (2017) e Mariana Tengner Barros (2018), e seguindo uma lógica de re-invenção experimental das dimensões programática e organizacional do Ballet Contemporâneo do Norte, o programa €UROTRA$H, curadoria de Rogério Nuno Costa para o ano 2019, consubstancia uma plataforma de criação coreográfica ampla e diversificada, na qual criadores, investigadores e outros agentes são convidados a re-inventar uma ideia multifacetada de Europa, entendida enquanto conceito histórico, filosófico e estético. Como afirma George Steiner em The Idea of Europe (2004): "Europe is the place where Goethe’s garden almost borders on Buchenwald, where the house of Corneille abuts on the market-place in which Joan of Arc was hideously done to death.” A urgência de uma reflexão transdisciplinar sobre estas contradições e tensões (culturais, sociais, políticas, económicas e religiosas), que durante séculos contribuíram simultaneamente para o afastamento e para a unificação de uma certa ideia — contestada por uns, abraçada por outros — de identidade cultural (pan-)europeia, ganha na atualidade mais recente um novo fôlego crítico, impulsionado pela designada “crise dos refugiados” e pelo crescimento exponencial de movimentos nacionalistas. Procurando uma contaminação da criação coreográfica por metodologias e discursos oriundos de outras disciplinas artísticas e científicas, os colaboradores foram desafiados a promover elaborações críticas que re-desenhassem uma (e)utopia pluralista e multicultural feita através da arte e das suas potencialidades sociais e políticas: sobre o desejo de “fazer parte”, sobre a solidariedade e a hospitalidade, sobre a viagem e o exótico. Enquanto laboratório para a experimentação de novas abordagens à produção e apresentação de objetos artísticos, o programa posiciona-se enquanto proposta analítica com o objetivo de testar a hipótese de uma identidade (ética e estética) mutável, holística e des-hierarquizada, partilhando autorias e autoridades, e antevendo a possibilidade de uma companhia experimental de dança. Ao longo do ano, o BCN apresentou, em diversos locais de Santa Maria da Feira, um ciclo de 8 sessões de dança (EUROPA ENDLOS), três performances-in-situ para espaço não-convencional (AGORA), um ciclo de conversas (CAFÉ CENTRAL) e duas peças de curta duração para auditório (EUROSHIMA).

Europe has been, is walked. […] The cartography of Europe arises from the capacities, the perceived horizons of human feet. European men and women have walked their maps, from hamlet to hamlet, from village to village, from city to city. More often than not, distances are on a human scale, they can be mastered by the traveller on foot, by the pilgrim to Compostela, by the promeneur, be he solitaire or gregarious. […] Europe has no Death Valley, no Amazonia, no ‘outback’ intractable to the traveller.

EUROPA ENDLOS was an educational program made available for audiences of all ages without any experience in dance. As a complement to Ballet Contemporâneo do Norte’s dance productions, where the audience is invited to watch dance, here the spectator is challenged to experience dance, its strategies, motives and modes of usage. The cycle consisted in a group of 8 thematic sessions organized in dialogue with €UROTRA$H‘s main concepts and tropes. Europa Endlos/Europe Endless (titled borrowed from a song in Kraftwerk’s 1976 album “Trans Europa Express”), sets the tone for the 8 sessions, served as experimental encounters with trans-European choreographic narratives: dances that are more or less neighbouring, more or less distant, migrated or immigrated, borrowed or appropriated. Here, Europe is turned into a hybrid and questioning concept, expanding beyond its historical borders (geographic and cultural ones).

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The three first sessions (January, February and March 2019) were conducted pelo professor russo Aleksander Vorontsov, e trouxeram à Sala de Ensaio do Cineteatro António Lamoso (Santa Maria da Feira) um olhar menos conhecido do Ballet. Fruto das tradições folclóricas húngara, ucraniana, russa e cigana, as designadas danças de caráter foram sendo esculpidas nas academias de bailado clássico, tornando-se numa disciplina própria, com uma técnica rigorosa, que rapidamente se popularizou entre os mestres russos. Entre os anos 20 e 60 do século XX, a dança de caráter foi uma das mais populares em França, mas foi sendo relegada para um plano secundário, havendo atualmente cada vez menos estabelecimentos de ensino artístico a propô-la como matéria obrigatória. Em Abril inicia-se um novo ciclo de três sessões, desta vez em torno da ideia de Contemporâneo. Expandimos ainda mais os limites geo-histórico-culturais do mapa “europeu”, abordando paradigmas coreográficos oriundos de outros continentes, e cujas manifestações coreográficas e musicais têm vindo a inspirar a cultura pop/hip hop e a street dance mundiais. Do Funk Brasileiro ao Kuduro Angolano, passando pela Marrabenta de Moçambique, o ciclo propõe uma deslocação do olhar (a Sul), em estreita colaboração com profissionais oriundos de países de língua oficial Portuguesa atualmente a residir e a trabalhar em Portugal. As duas últimas sessões (Novembro e Dezembro) abordam, por fim, o conceito de Norte. O objetivo agora é re-centrar e reduzir a atenção ao micro-contexto Ibérico, com uma deslocação do olhar (a Norte) que abrace narrativas coreográficas ancestrais, como as Danças Celtas, e géneros músico-coreográficos centrais para a história do folclore e demais manifestações etnográficas do Norte de Portugal, como o Vira, o Malhão e outras “contradanças”.

Curadoria: Rogério Nuno Costa | Formadorxs: Aleksander Vorontsov, Renann Fontoura, Kilamú Killa, Catarina Panguana, Rute Mar, NEFUP - Núcleo de Etnografia e Folcore da Universidade do Porto (Portugal) | Organização: BCN - Ballet Contemporâneo do Norte, Cineteatro António Lamoso | Artwork & Design © Jani Nummela | Fotografias © Diana Santos

Europe is made up of coffee houses, of cafés. These extend from Pessoa’s favourite coffee house in Lisbon to the Odessa cafés haunted by Isaac Babel’s gangsters. They stretch from the Copenhagen cafés which Kierkegaard passed on his concentrated walks, to the counters of Palermo. […] Draw the coffee-house map and you have one of the essential markers of the ‘idea of Europe’.

George Steiner

CAFÉ CENTRAL is the title of the conferential segment of €UROTRA$H. Researchers and thinkers from various fields have suggested informal encounters with the audience, moderating open and unpredictable talks in and around the topics and sub-topics of the curating program and its "in-progress" materializations. The "Central Café" as a place of intellectual debate and political conspiracy, inhabited by flâneurs, poets, metaphysics and writers, micro-unity of meaning that crosses all European latitudes.

The first three talks (April 2019) took place in an old church in the small village of São João de Ver, in the outskirts of Santa Maria da Feira. Each talk set up a thematic dialogue with the ongoing site-specific performances (AGORA) that were about to be premiere in the same peculiar space of the church. Three ideas of Europe were there discussed, through participatory talks between the program's collaborators, the audience and guest researchers: Joclécio Azevedo and Jorge Gonçalves (performing arts), Luís Lima (literary studies) and Eduarda Neves (philosophy). A segunda fase do ciclo (Outubro 2019) criou um diálogo simbiótico com EUROSHIMA, duas peças criadas para o palco do Cineteatro António Lamoso. Investigadoras das áreas dos estudos feministas, pós-colonialistas, anti-racistas e queer (Andreia Coutinho, Laura Sequeira Falé, Maribel Mendes Sobreira, do Colectivo FACA; e Joacine Katar Moreira, do INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal) encontram-se com o público num ambiente informal, propondo conversas abertas e imprevisíveis para uma história não-normativa da Europa.

Curadoria: Rogério Nuno Costa | Conversadores: Joclécio Azevedo, Jorge Gonçalves, Rogério Nuno Costa, Luís Lima, Eduarda Neves, Colectivo FACA (Andreia Coutinho, Laura Falésia, Maribel Sobreira), Joacine Katar Moreira (INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal) | Organização: BCN - Ballet Contemporâneo do Norte | Artwork & Design © Jani Nummela | Fotografias © Jani Nummela & Diana Santos

AGORA | ἀγορά são três performances-in-situ assinadas pelos coreógrafos Catarina Campos, Joclécio Azevedo e Jorge Gonçalves, apresentadas em sequência e com o mesmo elenco: Carminda Soares, Maria Soares, Melissa Sousa e Renann Fontoura. Trata-se do primeiro conjunto de peças de dança criadas para o programa €UROTRA$H. Procurando uma contaminação da criação coreográfica por metodologias, práticas e discursos oriundos de outras disciplinas artísticas e científicas, os três criadores foram desafiados a questionar a temática proposta a partir de uma citação de Aldous Huxley: “Europe is so well gardened that it resembles a work of art, a scientific theory, a neat metaphysical system. Man has re-created Europe in his own image", in Wordsworth in the Tropics (1929). O projeto re-desenha, assim, uma (e)utopia pluralista e multi-cultural feita através da arte e das suas potencialidades sociais e políticas: a AGORA enquanto berço da missão democrática e livre que consubstancia o projeto europeu, e que urge, na contemporaneidade, re-pensar e re-criar. Pensadas para um espaço não-convencional do município de Santa Maria da Feira, as três peças propõem uma reflexão sobre uma ou mais “ideias de Europa” imaginadas para um futuro-presente, ao mesmo tempo questionando as práticas artísticas e de investigação dos criadores convidados num objeto coreográfico — a Dança enquanto prática e pensamento. A apresentação estabelece um diálogo “in situ” com a arquitetura de um espaço particular (Antiga Igreja de São João de Ver), desprovido da sua função original, ou então re-ativado e potenciado enquanto "nova ágora": uma esfera alternativa (e radical) de discussão pública, logo política, em torno da importância da re-localização da arte noutros centros. Após um período de residência de criação acompanhado por Rogério Nuno Costa (curador e artista associado) e Susana Otero (diretora), as três peças estrearam nos dias 13 e 14 de Abril de 2019. O processo de criação foi profusamente documentado (em fotografia e vídeo) e será publicado em objeto documental no final de 2019.

Peças:

Este projeto incide sobre as noções de imaterialidade e imaginário comum que se produz dentro de um coletivo temporário, residindo no limiar entre participação e contemplação, inclusão e exclusão.

Jorge Gonçalves

Este trabalho é uma espécie de ensaio de desgaste, um teste de resistência e de flexibilidade mental para os intérpretes, assente numa estrutura de ações repetitivas que configuram uma paisagem saturada de gestos. Os intérpretes habitam o corpo como laboratório de experimentação mecânica e arriscam-se a perder o sentido.

Joclécio Azevedo

Da celebração dos trinta anos da queda do Muro de Berlim.
Muro. Ego. Cego. Um muro é uma barreira sem oxigénio que separa, distorce e danifica, contrastando a força e fraqueza de cada uma das duas realidades que são criadas.

Catarina Campos

Coreógrafos: Catarina Campos, Joclécio Azevedo, Jorge Gonçalves | Bailarinos: Carminda Soares, Maria Soares, Melissa Sousa, Renann Fontoura | Direção Técnica: Daniel Oliveira | Fotografia: Miguel Refresco | Design & Artwork: Jani Nummela | Curadoria & Documentação: Rogério Nuno Costa | Produção: Ballet Contemporâneo do Norte | Apoios: Junta de Freguesia de São João de Ver, Paróquia de São João de Ver, Tuna Musical de Santa Marinha, mala voadora.

EUROSHIMA é o último segmento a fazer parte do programa €UROTRA$H. Convidam-se dois criadores, em regime de carta branca, a conceber dois espetáculos de curta duração para o palco do Cineteatro António Lamoso. As duas peças, assinadas por Mara Andrade ("Expedição") e Cátia Pinheiro & José Nunes ("A Ideia de Europa"), foram apresentadas em sequência e com o mesmo elenco. No texto de George Steiner que informou conceptual e estruturalmente a curadoria geral, podemos ler: “Long before Valéry’s recognition of the mortality of civilizations or Spengler’s apocalyptic diagnosis, European thought and sensibility had envisaged a more or less tragic finality. […] Long after what historians have called the panic of the year one thousand, prophecies of eschatological doom, numerologies which seek to fix its date, throng the European popular imagination. […] In a secular, intellectualised format, a sense of an ending is explicit in Hegel’s theory of history as it had been in Carnot’s momentous formulation of entropy, of the inevitable extinction of all energy. […] It is as if Europe, unlike other civilizations, had intuited that it would one day collapse under the paradoxical weight of its achievements and the unparalleled wealth and complication of its history.” A partir desta reflexão, EUROSHIMA propõe uma leitura sobre diversas problemáticas que afetam a contemporaneidade, re-equacionando leituras distópicas sobre o futuro de uma Europa por vir, através de contributos da geopolítica, da filosofia e dos estudos europeus.

Curadoria: Rogério Nuno Costa | Coreografias: Cátia Pinheiro & José Nunes + Mara Andrade | Intérpretes: Catarina Campos, Joclécio Azevedo, Susana Otero, Thamiris Carvalho, Vinicius Massucato | Iluminação e Direção Técnica: Daniel Oliveira | Figurinos: Jordann Santos | Fotografia de Cena: Miguel Refresco | Design & Artwork: Jani Nummela | Documentação & Vídeo Promocional: Rogério Nuno Costa | Vídeo para "Expedição": Daniel Oliveira, Joclécio Azevedo e Catarina Campos | Som para "Expedição": Daniel Oliveira | Produção: Ballet Contemporâneo do Norte | Apoio: Imaginarius Centro de Criação | Agradecimento: TUP - Teatro Universitário do Porto

TIMELINE

  • CAFÉ CENTRAL

    Conversa #1 — 16.03.2019

    Ideias de Europa, com Joclécio Azevedo, Jorge Gonçalves e Rogério Nuno Costa.

  • AGORA | ἀγορά

    Estreia — 13.04.2019

    Três performances de Joclécio Azevedo, Jorge Gonçalves e Catarina Campos, apresentadas "in-situ" na Antiga Igreja de S. João de Ver, Sta. Maria da Feira.

  • CAFÉ CENTRAL

    Conversa #4 — 12.10.2019

    Activismo Curatorial, com Colectivo FACA (Andreia Coutinho, Laura Sequeira Falé e Maribel Mendes Sobreira).

  • CAFÉ CENTRAL

    Conversa #5 — 19.10.2019

    Descolonizar é desprogramar, com Joacine Katar Moreira (INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal).

  • EUROSHIMA

    Estreia: 26.10.2019

    Duas peças de curta duração de Mara Andrade e Cátia Pinheiro/José Nunes, apresentadas no palco do Cineteatro António Lamoso.

  • EUROPA ENDLOS

    Norte I — 23.11.2019

    Danças Celtas. Formadora: Rute Mar.

  • EUROPA ENDLOS

    Norte II — 07.12.2019

    Viras, Malhões e Contradanças. Formadorxs: NEFUP - Núcleo de Etnografia e Folcore da Universidade do Porto.

O Ballet Contemporâneo do Norte é uma companhia financiada pelo Governo de Portugal/Secretaria de Estado da Cultura (Direção-Geral das Artes) e apoiada pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.