Exercícios de Apatia

Variações imagéticas e textuais de micro danças por inventar. A partir de imaginações comuns entre uma proposta inicial e o futuro dessa proposta, propus-me ficar no lugar do sempre início. Como se não quiséssemos sair de um espaço em que só propomos aquilo que fica num lugar incompleto. Sem princípio, meio ou fim.

(RE=) INICIAÇÃO

Para Satie #1

Para Satie #2

Texto sobre ser primeiro

Uma companhia por inventar

Figura do mestre e do aprendiz

"E os Mestres, se existem mais do que em sonhos, não iniciam, não abrem quaisquer caminhos, apenas seguem de longe, e em silêncio, o deambular dos corpos." (Y.K. Centeno 1990:49)

"Sou um selvagem, uma criança – ou um maníaco; ponho de lado todo o saber, toda a cultura, abstenho-me de ser herdeiro de um outro olhar" (Roland Barthes 1980: 77)

§§§

Texto sobre obstáculos

O que é experimental?

Ideia de anatomia, de um esqueleto – um texto sobre as partes de um espectáculo. Jérôme Bel – espectáculos para pessoas – fazer mini danças. Criar fragmentos de danças que possam ser transmitidos – repertório. Danças clássicas, ritualistas, tribais – fazer uma dança iniciática. Pequenos vídeos com comida e textos ou sons – cabeça de pescada com texto.

Vamos então dar início às danças dos ossos.

Pequena Dança #1

 

LINKS E IDEIAS SOLTAS

“Estava triste sem saber por que razão;

quase receoso sem saber a causa.

Tive a ideia de me distrair contando, lentamente pelos dedos,

de um até duzentos e sessenta mil.”

 

Erik Satie s/d: 49

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ideia de iniciação, de passagem para um outro estado. A transmissão de uma técnica, de um saber fazer. O primeiro impulso de fazer um espectáculo, criar momentos de primeiras imersões, de um primeiro contacto, de uma primeira experiência.

 

 

Baile de Máscaras? LINK

§§§

TEXTO ESQUELETO:

Não há iniciação porque não há início. Aqui estamos no durante, dentro de um esqueleto em que as partes não formam um todo.

Começo pelo crânio e imagino um lugar onde o bolor se instalou e as águas estão paradas dentro de um caudal inactivo. Não há entorno líquido para os lugares do músculo. Estamos reduzidos ao osso quebrado de um fóssil por existir. Antes de iniciar já estava iniciado. Digamos que o crânio tal como o sentimos na mão, foi reactivado pelo olhar dos espectadores que deixaram de o ver.

 

Continuo pela coluna e pela sua multitude colorida. Eis um exemplo de perfeição; não há início nem fim. Como numa dança sem dança, a coluna estende-se para além de si própria, alojando-se no coração e na razão, dois lugares de confusão. É muito osso junto, em conflito consigo próprio, o que é normal, dado o pouco espaço que cada osso tem entre si para respirar. O conflito instala-se e a fricção devido ao confinamento começa a fazer as primeiras vítimas. Uns em cima dos outros, os ossos tentam evadir-se para fora do corpo fechado e dirigirem-se para um corpo aberto, que esteja disponível para os receber; o Palco.

As costelas flutuantes fazem o que melhor sabem fazer e instalam-se nas margens do palco à espera de uma primeira respiração, a mesma deixa para todos os espectáculos, a mesma respiração em oitos, a mesma monotonia.

 

O fémur sofre um acidente, antes de entrar em placo, deixando-nos órfãos de bacia e sensualidade. O movimento mais sexy do palco foi atropelado à porta do teatro. Estamos órfãos do centro das atenções e do protagonismo.

A mandíbula lembra-se que existe e ocupa o lugar do microfone, tentando dar espectáculo e fazer muitas citações de cabeça (da cabeça da Adília), como por exemplo:

 

Gosto das cebolas

e das pessoas

Mas as pessoas

São como as cebolas

Fazem chorar

Ou ainda:

Agora as pessoas

Não sabem morrer

Estar doentes

Sofrer

Ter prazer

Tocar-se

Dantes também não

Os aplausos soaram de um lugar distante, dir-se-ia que vindos dos ossos esquecidos de fantasmas que nunca aqui puseram o pé e o osso zigomático rebentou-se a rir. Os ossos não esperam perdão, estão aqui para servir o palco, cientes da sua fatalidade e do seu lugar hermético, bem encapsulados na mise en scène. Não vieram aqui reivindicar a sua liberdade, nem sequer um rendimento básico universal, mas tão só, nomearem-se donos das danças que por aqui vão existir. Ossos ao serviço das danças. Os músculos, as articulações, os órgãos e tudo o que poderia ser identificado como extra-osso, não cabe aqui.

 

A continuar. Rever ideias, desenvolver dentro do osso.

Hoje vou dar uma data ao dia de hoje – 29/04/20

Onde é que eu estava?

 

No fim da poesia. No fragmento das direcções. No ar rarefeito. Na neblina. Nos equívocos. Na luta. Dentro do corpo. Na infância. Na desproporção. No sexo fantasiado. Nas bochechas. Nas pontas dos dedos. Nos alimentos dos neurónios. No sórdido. Nú. No sapateado.

 

Não há volta a dar aos dias.

Eles não acabam nem começam.

Estão sempre no mesmo lugar.

 

Quando volto ao início volto aqui:

         LINK

(Não é sempre, foi só agora que me lembrei do que estava por fazer.)

§§§

Exercício para experimentar no futuro:

 

Ouvir o My Autumn´s Done Come do Lee Hazelwood em repeat

Ouvir o So Sad do Vincent Gallo em repeat

Ouvir a Balada do Outono do Zeca em repeat

Não fazer absolutamente nada com isto tudo

Às vezes acho que devia colocar aqui umas fotografias, mas acho que não tenho jeito. Ter jeito – criar um exercício sobre ter jeito – pressupostos mecânicos e conceptuais. Motor e roda dentada dentro de um corpo feito de pele máquina. Flesh and bones deep inside celular thoughts. Para este exercício levar a memória dos professores que nos marcaram e nos disseram que éramos uns queridos e que tínhamos jeito para tanta coisa e para nada ao mesmo tempo. Uma espécie de paralisia, onde a diferença morre perante a norma. Uma espécie de levanta-te e caminha mesmo quando não temos pernas. (Talvez este parágrafo esteja a mais: rever)

 

Acho que hoje devia estudar um bocado e colocar aqui umas citações, para isto ficar consistente. Uma espécie de corpo de trabalho sem trabalho. O que é o trabalho? Abro um livro ao calhas, como sempre faço (mentira) e retiro-lhe um pouco da sua breve vida:

 

O que devo saber se a polícia me abordar?

 

Tem o direito constitucional de permanecer em silêncio. Caso a polícia tente conversar amigavelmente, pode ficar em silêncio e afastar-se. Caso a polícia ordene que siga em frente ou dê outro tipo de instrução, pode perguntar o porquê dessas ordens, mas o melhor será não dizer nada. Será importante que alguém possa testemunhar a sua conduta e a da polícia. Caso um agente da polícia o queira revistar, diga que não aceita. Se o agente ainda assim o revistar, diga-lhe novamente que não aceita esse procedimento. Caso se oponha fisicamente ao procedimento, arrisca-se a ser detido. Se a polícia o interrogar e lhe perguntar o seu nome, pode ficar em silêncio e afastar-se. Se a polícia o impedir de se afastar, pergunte se pode fazê-lo. Se a resposta for afirmativa, não responda e afaste-se. Se a resposta for negativa, diga que prefere não dizer nada e que quer falar com um advogado e espere que polícia o detenha ou o deixe partir.

(Retirado de Informações aos Manifestantes do Occupy de Noam Chomsky)

§§§

Exercícios de Apatia I:

Levantar da cadeira, andar pela casa, ir à casa de banho, olhar pela janela, apanhar a roupa, pensar no jantar, pensar se continuo a beber ou não porque tenho bebido todos os dias, ok pode ser cerveja, vinho é melhor não, fico com a cabeça pesada no dia seguinte e depois não trabalho. O que é o trabalho?

 

Exercícios de Apatia II:

Rodar a cabeça para o lado direito durante 30 segundos. Voltar ao centro rapidamente e fazer o mesmo para o lado esquerdo. Voltar ao centro rapidamente.

Fotografar o arco-íris.

Exercícios de Apatia III:

Escrever um poema.

Oh darling my darling

I can take you there

Where the dreamers live

Under the water

Under the colours

In my summer body

Filtered with kindness and

Belly dances for eternity

Do you see the sunshine

My sunshine?

Exercícios de Apatia IV:

Assumir que o grande desejo é que tu aí estales os dedos e tudo volte a ser o que era, mesmo sabendo que não é.

Exercícios de Apatia V:

Escrever um poema muito gráfico. Um poema design. Um poema 3D em 4k.

Exercícios de Apatia VI:

Fazer uma mini dança com a Canção Longe do Zeca. Acho que amanhã consigo.

Exercícios de Apatia VII:

Pensar no Zeca e não perceber nada. Não tive ninguém da minha família que me falasse do Zeca. Eram todos do PSD e não cresci (ao contrário da maior parte das pessoas que fazem parte do meu coração) nem a ouvir Zeca nem a falar da importância do 25 de Abril. Cresci longe, mas estou perto. Nasci longe, mas vivo perto. Sempre que ouço o Zeca fico assim neste estado de profunda emoção. Não sei dizer melhor que isto.

Exercícios de Apatia VIII:

Reinventar; aproveitar a oportunidade; até conseguimos mostrar-nos em vida digital; uau; uma incrível capacidade de adaptação; ser resiliente; aproveitar a oportunidade; escrever um livro; plantar uma árvore; ter filhos (já tenho); cuidar da horta; ir viver para o campo; para o campo; para o campo; para o campo; eu estou no campo; antes destes prédios havia campo e eu vivo no passado desse campo sem prédios; retomar a economia; mudar as perspectivas de negócio; o que é um negócio?; alterar o sentido da vida; conspurcar as igrejas; dormir no chão; roer o osso; roer o osso; aproveitar a oportunidade; viver acima das árvores; não; viver com as árvores; viver acima das possibilidades; de quais? das tuas?; salvar o mundo; dançar; dançar; quero ser Trisha Brown; quero ser Pichet Klunchun; quero ser Isadora; quero ser Nijinsky; gutural; quem?: tu!; quem?: roubar o tostão do patrão; roubar o milhão do patrão; viver sem medo; viver sem medo; sem medo; medo; de quem?; olhar para dentro do bolso; reinventar a sobrevivência; colocar a pela na pele da árvore; não humanizar; vegetalizar; viver dentro da árvore; sou tímido.

 

Pequena Dança #2

Exercícios de Apatia IX:

G E O G R A F I A S

Bruno Alexandre

(RE=)