Face aos dias que vivemos, quanto da situação já mudou ou virá ainda a mudar a forma como olhamos o outro? É sobre esta pergunta que, ainda no meio de um estado de calamidade e da necessidade de distanciamento, Daniel Pizamiglio se debruça, considerando este momento como uma oportunidade única para convidar todxs para uma reflexão e um exercício do olhar. Contradizendo o medo que nos permeia e que se sente no ar e a tendência para uma imunologização generalizada do outro, este convite marca o início de uma pesquisa sobre como olhamos e nos relacionamos com o outro hoje. Esta pesquisa e este convite, que tiveram como ponto de partida o apoio extraordinário oferecido pelo projeto “(RE=)Iniciação” do Ballet Contemporâneo do Norte (Portugal), ganhará forma numa série de trinta-e-um encontros com pessoas próximas ou distantes, em que num momento face-a-face ou mão-a-mão, através de conversas, leituras de textos e exercícios, se procure uma reiniciação do próprio olhar. Seguindo, como ideia impulsionadora dessa procura, a instrução:

 

POR FAVOR,
OLHAR COMO SE FOSSE A PRIMEIRA E ÚLTIMA VEZ.

Vídeo do primeiro encontro/ensaio com Julián Pacomio.

Tenho-me debruçado sobre a questão de como, individual e coletivamente, nos relacionamos com a diferença do outro. Pensando numa ideia de alteridade, busco na memória algumas reminiscências do meu encontro com dois coreógrafos: em 2009 com o João Fiadeiro. E dez anos depois, em 2019, com o Luis Garay.

 

Quando conheci o João Fiadeiro, coreógrafo com quem trabalho há vários anos, uma das suas instruções na iniciação à prática de Composição em Tempo Real, máxima que iria ficar reverberando em mim até hoje, era:

 

“Tentem olhar as coisas como se fosse a primeira vez”.

 

O que nos diz esta máxima? Abrir espaço às (im)possibilidades de um “outro”. Olhar como se não soubéssemos o que aquela coisa é. Desarmarmo-nos do conhecido e do certo e mergulharmos, numa aproximação lenta e às escuras, cheia de cuidado e de atenção, daquilo que queremos descobrir. Olhar desconhecendo. Tomar distância (primeiro) para reaproximar (depois).

 

Muitos anos depois, num reencontro com o coreógrafo colombiano Luis Garay em 2019, enquanto ensaiávamos a reposição de uma das suas performances, ele partilhou connosco uma premissa para conduzir-nos a um estado particular de atenção:

“Olhar para as coisas como se fosse a última vez”.

Olhar como se fosse a última vez resvala-nos para um sentido de agonia: a angústia de uma perda. Olhar com a tensão impressa da perenidade, apercebendo-nos a cada momento do que não fica. Um olhar que olha mais doce, e que repara que deste angor, se revela, afinal, um oposto: a dádiva.

 

Se já antes me debruçava sobre como olhar o “outro”, nestes dias, quando este é o estrangeiro que nos impele a uma sanitária repulsa, de tal forma associado a um risco, ao perigo de contágio e a uma ameaça invisível do exterior, estas duas formas de olhar voltam-me ainda mais prementes.

 

Elas são ambas formas de olhar o outro. E, à superfície, contraditórias. Mas neste momento de crise e (re)iniciação que atravessamos, parecem, para mim, oferecer- nos ferramentas que incitam os nossos corpos a um estado constante de envolvimento:

 

Olhar para o outro como se fosse a primeira e a última vez.

Acompanhando de longe o Ballet Contemporâneo do Norte e atendendo ao chamado para uma (Re =) Iniciação, imagino que estas ideias nos serviriam para repensar em coletivo (nas circunstâncias atuais) novas formas de estar-juntos, potencializando o lugar da performance/dança como lugar de encontro com o “outro”.

Daniel Pizamiglio

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