RITUAL

Corpo como Máscara

 

1. O corpo desantroporfizado não é uma recusa hostil da sua materialidade ou uma disforia, é antes uma mudança de perspetiva. Quando olhamos o corpo de outro modo, quando lhe retiramos um membro ou lhe desenhamos uma forma geométrica, abrimo-lo. Na estranheza desta ligeira amputação ou imposição, desregra-se o corpo, para a possibilidade da efabulação e da polissemia. Surge um corpo transitório, que quase parece ser qualquer coisa, mas que nunca chega a ser. Tem semelhanças, mas nunca se torna “um vírus” ou “um anfíbio”, talvez por não deixar de ser parte humano ou por não se preocupar em representar formas de ser conhecidas.

 

2. A dança é um ato de escuta e a máscara uma prótese para o esvaziamento. Dançar com uma máscara ou oferecer o corpo como máscara é recusar discursos de identidade artística, porque se entende o corpo como parte de um ritual para a transformação daquilo que nos identifica. Ser um corpo-máscara é assumir temporariamente em si outras identidades. A máscara esconde para revelar, protege a nossa identidade, adiando-a, para a experimentação do novo ou para a revelação do secreto.

 

3. Muitas vezes, os rituais não provocam efeitos. O que neles é mais significativo é a agregação e a cronologia deste conjunto de ações, muito mais do que os resultados que dele derivam. Independentemente da intervenção de forças ou entidades de poder como consequência, o ritual tem uma força transformadora própria que age no seu decorrer. Nele, permitimos o abrir de um espaço de vulnerabilidade, em que por momentos nos despimos daquilo que somos e fazemos, aceitando a possibilidade de nos tornarmos uma outra coisa. Acaba por ser um gesto de humildade ou prepotência, uma brecha na autoimagem. A criação em dança é uma descoberta de novos rituais ou a reinvenção de rituais antigos, em que regularidade do acto lhes dá significado. O hábito do gesto entranha-se no corpo, num processo gradual de assimilação daquela forma de ser.

Júlio Cerdeira (Banquete)

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