PARA 

Marina

Leonardo

TI

(RE=)

Este texto deve ser lido ao som de Erik Satie:

Gymnopédies, 1988.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É esta a música que acompanhou quem o escreveu. Aconselha-se também o leitor a estar sentado, de preferência num sofá. Se escolheste não o fazer, está tudo bem. 

 

Os próximos sete minutos são apenas teus, as palavras que se seguem foram escritas para ti. Quero dizer-te que tens o direito de, a qualquer momento, interromper este nosso encontro.

 

É importante lembrar que todas as decisões que tomaste na última hora te trouxeram até aqui. Todas as escolhas que fizeste para o teu dia te trouxeram até mim. Isto significa que tudo o que optaste por não fazer na tua última semana te trouxe até este texto. Lembras-te de quando no mês passado tomaste aquela decisão? Essa escolha fez com que estivesses aqui, comigo, agora.

 

Os últimos anos foram importantes para nós; não importa se gostarias de mudar alguma coisa, porque o importante é que encontraste isto, que foi escrito para ti. Desde que começaste a andar e decidiste para que lado ias, todas as vezes que escolheste direita, esquerda, em frente, para trás, e agora de lado, me fez encontrar-te. 

Senta-te melhor.

 

Estás no sítio certo.

 

Chegaste ao nosso encontro. 

Não é bonito ver alguém partir com o direito ao sim e ao não?

Peço-te que fiques por mais cinco minutos.

 

Podes encostar-te para trás...

 

Isso, muito melhor...

 

É verdade que não nos conhecemos há muito tempo, e eu nem me apresentei: posso dizer-te que sou o resultado da tua vida, das escolhas dela. Interrompi alguma coisa? Está tudo nas tuas mãos. Já sei que me podes dizer que, sendo tudo uma decisão tua, te podes levantar e continuar o que estavas a fazer antes. Ficará para sempre a curiosidade do que virá depois.

 

Andamos tão ocupados a pensar como nos ocupar que os dias não são lentos, pelo contrário, já passaram quase dois meses desde que começou o nosso encontro, desde que começaste a ler este texto. 

 

Não deste por isso?

 

Olha à tua volta...

 

Passaram exactamente 60 dias e as tuas plantas cresceram pelo menos 1 cm; não deste por isso? O teu cabelo acompanhou o crescimento das plantas, mas também não deste por isso...

 

O meu cão já me pediu 72 vezes para ir à rua e tu já cozinhaste 100 vezes, entre as quais 10 foram da tua preferência, 20 porque não tinhas mais nada no frigorífico, 1 vez a tua comida favorita, 43 à pressa e as outras 26 vezes nem se deveria considerar cozinhar. Quantas vezes sonhaste com aqueles croquetes que só a tua avó sabia fazer tão bem? Ah, desculpa, não eram croquetes... era...

Perdemos a noção de tempo, mas ganhámos outra, a de estarmos juntos.

Vamos fazer uma pausa, recordar o dia em que nos conhecemos.

 

Isso, estica as pernas, alonga bem, aqui não devemos renunciar ao conforto...

 

Fomos sempre tão diferentes, tu tinhas tanta energia e eu andava sempre a tentar acompanhar-te. Escutávamos as mesmas músicas mas não tínhamos o mesmo prazer com elas. Eu dava-te motivação para continuares e tu estavas sempre a perguntar-me o que estava a fazer. É certo que depois o tempo passou... Já olhaste bem, desta vez, à nossa volta? Agora sou eu quem te motiva e tu quem tem dificuldade em acompanhar o meu passo...

Ainda estás comigo?

 

Sinto-me feliz por isso. Recordo-te que ainda não sei o teu nome, mas digo-te que estamos aqui, hoje, a festejar o meu décimo milésimo dia na terra; ora, pelas contas, tenho vinte e sete anos. Dez mil dias na terra, sim. Resolvi não convidar mais ninguém porque gostava que estivéssemos sozinhos. Nunca gostei de festas, as celebrações deixam-me nervosa. Gostava de ter alguém a segurar o bolo enquanto sopro as velas; se fores embora, fico completamente sozinha... Preparei tudo ao meu gosto, mas acredita que o fiz para te agradar. Por mim passávamos à frente esta parte e seguíamos com as recordações, os momentos marcantes. Não sou boa a organizar festas, não sou boa em nada que não goste de fazer. E tu, quantas vezes tiveste que fazer coisas que não gostavas? E às tantas aqui estamos nós, a ser mesmo bons a fazer as coisas que não gostamos, e, no fim do dia, a gostar de as fazer...

 

Gostava de ter um projector preparado para te passar o filme da minha vida, já que só nos restam três minutos juntos.

No dia 3028 da minha vida, não estava preparada para ter ligado a televisão. Era o dia 11 de Setembro de 2001 e eu tinha apenas oito anos. Desculpa, nem te dei tempo de fazeres os teus próprios cálculos. Ligo a televisão da sala, os meus pais apercebem-se do que se passa e vão ligar a televisão que estava na cozinha, junto à lareira. Recordo-me perfeitamente de ficar sentada no sofá, durante todo o acontecimento, sem falar.

 

Como estamos agora, já reparaste?

 

O sofá parecia-me maior, é a única diferença. 

Agora que somos íntimos, podes contar-me qualquer coisa sobre ti. Depois ficamos aqui umas horas a conversar, a seguir começamos a partilhar os mesmos hábitos, a ir ao mesmo café, pedimos água das pedras, fechamos o nosso grupo de amigos e começamos a ter os mesmos, mudamos o nosso fim de tarde, passamos a viver na mesma casa, deitamo-nos na mesma cama, viajamos, compramos uma máquina de lavar loiça que sempre nos fez tanta falta e, sem dares por isso, já temos uma família, os nossos filhos vão para a escola, conhecemos os amigos deles, pagamos a faculdade, rezamos para que não sejam miseráveis e logo estaremos sozinhos de novo, a viajar pelos países que tínhamos deixado na lista de há vinte anos. Será que ainda aí estás? 

Sim.

 

 

 

 

 

 

Conseguiste chegar ao momento em que nos despedimos.

 

Deixo-te apenas com uma questão: Não serei eu aquela música que não te sai da cabeça há anos? Ou, espera... aquela data histórica que já te esqueceste? 

 

 

Quase que chego a pensar que isto foi tudo uma invenção e pergunto-me como ainda não foste embora; envelhecemos juntos, já não subo as escadas tão rápido, e a minha memória já não é a mesma. Mas que importa? Continuamos aqui e por isso devemos celebrar. Levanta o teu braço direito e abana a mão, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, cinco vezes. Já que não há beijos nem abraços, fiquemos assim, a acenar, até que nos deixemos de ver. 

Fim

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