

ORINOCO
uma criação de Eduardo Molina para o programa Outros Formatos V do Ballet Contemporâneo do Norte
estreia 4 de dezembro 2026 - 21h30 - Teatro A Flor de Aldriz - Santa Maria da Feira
Entrada gratuita, limitada à lotação da sala. Reservas para o email bcnproducao@gmail.com
ORINOCO é um espetáculo sobre a Venezuela contemporânea e sobre o colapso de uma promessa nacional construída ao longo do século XX. Parte da identidade do seu criador como luso-venezuelano e da história concreta da Venezuela — país que associou a sua identidade moderna à riqueza petrolífera — para investigar como essa promessa de prosperidade se desfez.
O título mantém-se em espanhol por fidelidade ao território que convoca e à memória cultural que o atravessa: o rio Orinoco, um dos maiores da América do Sul, atravessa a região onde se concentra a principal faixa petrolífera venezuelana. Foi ali que se consolidou a ideia de abundância contínua, financiando infraestruturas, urbanização e um imaginário de modernidade. O título aponta para o momento em que essa promessa falha: não apenas uma crise económica, mas o afundar de um projecto de futuro, submerso na dependência estrutural, nas erosões institucionais e nas tensões geopolíticas que redefinem o país.
A partir dos acontecimentos históricos recentes, onde a presença direta de uma nação estrangeira em território venezuelano reconfiguraram o equilíbrio interno e externo do país, a peça interroga soberania, legitimidade e reconstrução. A Venezuela está perante uma redefinição radical do seu destino. Mas o que acontece neste território funciona como versão concentrada de um movimento mais vasto da história global: economias dependentes de recursos estratégicos, democracias fragilizadas, disputas geopolíticas que transformam soberanias em jogos de tabuleiro. O espetáculo propõe olhar para o percurso do país como um caso específico que revela mecanismos globais. O futuro venezuelano permanece incerto, mas essa incerteza é parte de uma condição global partilhada.
Neste movimento inscreve-se, naturalmente, a diáspora portuguesa. Tal como ao longo do século XX milhares de portugueses partiram para a Venezuela em busca de trabalho e estabilidade, hoje assiste-se ao movimento inverso, com luso-venezuelanos a regressarem a Portugal. As trajetórias cruzam-se, revelando que migração, crise e reconstrução não são excepções nacionais, mas padrões recorrentes da história moderna.
Como artista luso-venezuelano, o criador quer trabalhar a partir da experiência de deslocação como método. A condição migrante estrutura o processo, e é por isso que gostaríamos que o projeto tivesse uma interação direta com elementos da diáspora venezuelana. A possibilidade de contar esta história após o contacto com vozes da diáspora, que transporta experiência vivida, memória migrante e conhecimento, ultrapassa a qualidade de testemunho ilustrativo, e transforma-a em presença ativa, parte desta história.
Eduardo Molina
Artista de Teatro. Formou-se no Curso Profissional de Interpretação do CEPAM (2012) e com a licenciatura em Teatro – ramo Actores pela ESTC (2015). Trabalha como criador de teatro, dramaturgo e intérprete, aproximando-se cada vez mais de práticas de criação colaborativa com comunidades, explorando a construção coletiva e a partilha de experiências. Em 2018, como intérprete, integrou o elenco de The Scarlet Letter, de Angélica Liddell. Como criador, em conjunto com João Pedro Leal e Marco Mendonça, venceu a Bolsa Amélia Rey Colaço com Parlamento Elefante, estreado em 2019 no TNDM II, e o Convite à Criação da Rede 5 Sentidos com CORDYCEPS em 2021. Recebeu o Prémio Novas Dramaturgias – LdE 2019 com A infinda apetência da luz do sol, projeto no qual explorou a criação interdisciplinar e colaborativa com diversas comunidades; e venceu a Mostra Nacional de Jovens Criadores 2021 com TARANTATA, outro projeto em que a participação comunitária fez parte do processo de dramaturgia e criação. Em 2023 escreveu e dirigiu JUSTOS ENTRE AS NAÇÕES, espetáculo produzido pela Companhia de Actores e estreado no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço, em Algés, Lisboa. Em 2022 integrou o curso de formação teatral avançada École des Maîtres, ministrado por Claudio Tolcachir na Bélgica, Itália, França e Portugal. Entre 2019 e 2024 dirigiu A infinda apetência da luz do sol, projeto produzido pelo Teatro do Vão, dedicado à pesquisa original sobre interdisciplinaridade artística entre dramaturgia, música, artes plásticas e dança, e ao desenvolvimento de práticas de criação coletiva com diferentes públicos e comunidades.

