TEOLOGIA DA QUEDA

de Luís Carolino

Teologia, s. f. (gr. Theologia). Ciência da religião, das coisas divinas.

Queda, s. f.. Acto ou efeito de cair. Decadência ruína. Descrédito. Culpa, pecado. Tendência, inclinação. Cessação, termo.

É muito intrigante o facto, surpreendentemente teatral, de um anjo que «cai» da graça do Senhor se transformar num demónio; como é que algo, por definição, intrinsecamente puro e bom, se transforma em algo, por definição, intrinsecamente mau? Por que mecanismo? Por que mistério?
A queda de graça ou ascensão ao estado de graça, é uma metáfora de transformação. Todos nós atravessamos momentos de maior ou menor transformação na nossa vida, de maior ou menor «queda», de maior ou menor ascensão.
Talvez o que seja determinante no processo de transformação seja, finalmente, o livre arbítrio; afinal, se não temos, por vezes, controlo sobre o que nos acontece e quando nos acontece, temos sempre algum poder de escolha no tipo de reacção que optamos por ter face ao que nos acontece.
Complicado conhecimento este, difícil aprendizagem; entre a queda e a ascensão um lugar de calmaria: ponto neutro da existência. É neste lugar que se desenrola o mistério desta Teologia da Queda.
Num espaço vazio, tornado confortável e vagamente interior por um grande quadrado de pele, simultaneamente definidor do lugar ritual da representação e garante de uma certa pureza dada a sua brancura, habitam temporariamente cinco personagens — como temporário é tudo na vida do humano e, forçosamente, num palco.
Cassandra, que tudo vê e sabe, premonitória, bendita e amaldiçoada; a única que sabe o caminho e a mais perdida; a única a quem foi dado ver e por isso cega.
Os Gémeos, uma revisitação do mito de Adão e Eva. Par seminal que de uma paz edílica inicial termina separado: Eva em seu jardim, a Rosa entre rosas, um caminho de espinhos como preço pelo conhecimento cobiçado; Adão num jardim de pedras, mais só do que no primeiro dia da criação, só apesar do produto da sua costela, carne da sua carne, sangue do seu sangue, para sempre dele separado, para sempre dele inseparável.
Pelo meio uma Criança e um Cão; a nossa inocência mais ou menos perdida, mais ou menos ameaçada; e a nossa eterna solidão de cães errantes sempre famintos de consolo.
Lucifer a mais perfeita de todas as criaturas de Deus revoltou-se quando soube que Deus tinha criado o Homem à sua imagem e semelhança. Cometeu o pecado do orgulho e caiu da graça do Senhor transformando-se num demónio — no Demónio.
A Queda como metáfora de transformação, de morte, portanto.
O conhecimento daquilo que se não pode conhecer: o conhecimento de Deus, o conhecimento do absoluto, do infinito: a Teologia da Queda.

Luís Carolino

Concepção, Direção e Composicçao coreografica: Luís Carolino

Criaçao e interpretação: Joana Nossa, Susana Otero, Rui Marques, Mário Gonçalves e Diana Silva

Desenho de Luzes: José Machado

Colagem Musical: Luís Carolino

Espaço Cénico: Luís Carolino

Desenho de figurinos e Adereços: Luís Carolino e José Machado

Construção de adereços: Jose Machado

Produção: Ballet Contemporâneo do Norte

Estreia: 3 de abril 2003, Estarreja