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RE=INICIAR | resumo

Atualizado: 23 de mar. de 2023


Artwork © Jani Nummela




RE=INICIAR

Não outra vez, mas de novo


Com produção e curadoria do Ballet Contemporâneo do Norte, o Encontro de Artes Performativas terá a sua primeira edição em Novembro de 2022, trazendo à cidade de Santa Maria da Feira um conjunto eclético de criadores, intérpretes, formadores e pensadores da Dança, da Performance, do Teatro, das Artes Visuais, da Música, dos Cruzamentos Disciplinares e do Pensamento para a partilha de conhecimento técnico e teórico entre pares e em colaboração com o público local. Vários espaços da cidade serão ocupados com performances, apresentações de trabalhos em progresso, workshops, exposições, concertos, palestras e residências, propondo uma semana de encontros pluri-disciplinares e inter-relacionais entre as várias tipologias de públicos e as práticas artísticas contemporâneas de natureza híbrida e experimental. O programa pretende assim confrontar a prática, a investigação, a educação, a curadoria e a edição artísticas com outras áreas paralelas à criação, convocando olhares de agentes do jornalismo e da crítica, mas também do pensamento científico, filosófico e antropossociológico, numa plataforma plural de contribuições que se interligam e complementam, propondo uma reflexão holística sobre várias problemáticas que afetam o mundo contemporâneo.

Em contra-corrente a uma lógica programática próxima da ideia de “festival”, o Encontro de Artes Performativas lança-se na imaginação e na experimentação de colaborações estratégicas para a criação de projetos duracionais de dinâmica participativa, ambicionando uma ética laboral e interpessoal capaz de criar contextos de trabalho des-hierarquizados e horizontais. O programa propõe uma observação crítica da criação-investigação contemporânea enquanto utopia pluralista e multicultural, abraçando as potencialidades sociais e políticas da arte, assim procurando uma contaminação da criação coreográfica por metodologias, práticas e discursos oriundos de outras disciplinas artísticas. Os criadores convidados serão desafiados a questionar, rever, expandir e solidificar as temáticas, as práticas, as operações documentais e os formatos de investigação que fazem parte do seu universo criativo.

RE=INICIAR é o mote que atribuímos à primeira edição do Encontro de Artes Performativas, conceito operacional cuja origem recua ao ano de 2020, quando o Ballet Contemporâneo do Norte lança uma convocatória de natureza emergencial com o objetivo de fazer frente às dificuldades económicas que o setor das artes enfrentaria com a primeira vaga da pandemia. A chamada resultou na seleção de um grupo de criadores, intérpretes, formadores, investigadores, técnicos e produtores das várias áreas artísticas, que haveria de produzir e apresentar trabalhos performativos pensados para o contexto online. Na medida exata das circunstâncias de absoluta excepção que rodeou o processo de partilha, o projeto juntou num website um conjunto de pequenas “iniciações” para projetos por vir, fabricadas em regime de colaboração por agentes que nunca haviam trabalhado com o Ballet Contemporâneo do Norte. À distância de dois anos, queremos continuar a alimentar a poderosa fragilidade que nos uniu em Abril e Maio de 2020. Aos participantes de 2020 juntar-se-ão outros artistas e colaboradores pessoal e profissionalmente próximos do nosso trabalho. Uma nova (RE=)Iniciação, que é também uma procura (sempre nova) de impulsos outros para melhor podermos e sabermos estar-juntos. Ou como voltar a potenciar a conexão emocional em tempos de (pós-)distanciamento social.


Rogério Nuno Costa

 

Artwork © Jani Nummela


 

Diário de Bordo

por Diogo Sottomayor



Re=iniciar.

Re=fazer.

Re=imaginar.

Re=encontrar.


A organização e curadoria do Ballet Contemporâneo do Norte trouxe a Santa Maria da Feira um conjunto de 24 artistas que se espalharam pelos espaços convencionais e não convencionais da cidade – e alguns deles, em mais do que um espaço – mas isso será discutido mais à frente.


Isto não é um olhar exaustivo sobre todos os trabalhos, não é uma crítica, e também não é uma memória descritiva, nem tem a pretensão de o ser. Este texto é uma reflexão de alguém que esteve presente neste encontro e que procura, aqui, neste espaço, com esta distância temporal, um olhar de novo para o que ficou, o que aconteceu.


O encontro de tantas visões artísticas poderia resultar apenas numa cacofonia de ideias, porém, tal não aconteceu. O espaço de generosidade que cada artista propôs demonstrava que a ideia deste re=iniciar não era apenas uma repetição ou representação, mas sim uma oportunidade de re=ativar uma nova forma de fazer, um novo olhar, passado este tempo sobre a pandemia que, a cada dia, parece mais distante.


Sendo isto uma reflexão pessoal de um observador externo, proponho ao leitor um contrato de ficção. Levarei quem quiser caminhar textualmente comigo por estas memórias. Porém, para que a relação resulte, preciso que algumas vulnerabilidades fiquem expostas, pelo que tenho de as mostrar antes de começarmos esta caminhada:


  1. Há performances que não consegui ver: Miguel Pereira, Mariana Barros, Nélson d’Aires e Henrique Fernandes.

  2. Há performances que não vi porque participei nelas. E ver de dentro não é o mesmo do que ver de fora.

  3. Há performances onde estão antigos professores, amigos de longa data e ex-colegas de faculdade.

  4. Há performances que não ouvi. Vi entendimentos performativos de quem a ouviu.

  5. Há performances cuja construção vi de fora, mas que no dia da apresentação mergulhei com essas pessoas dentro.

  6. Há performances onde depois tive acesso ao texto e outras onde apenas tenho a memória do que foi dito.

  7. Há performances que considero que não devo escrever sobre elas. Não temos de nos ligar a tudo o que vemos. Cada gesto deste encontro é arte e a arte é subjetiva. Como tal, não quis criar uma ligação artificial.

  8. Dito isto, podemos começar, espero que estejam confortáveis. Encontramo-nos no ponto 9.


Artwork © Jani Nummela

 


Marina Leonardo convoca-nos através de uma coreografia simples: “Cicatriz. Andar. Queda. Dança”. E ocorrem uma série de encontros, despedidas, procuras e gestos que nos levem a esse estado de espírito. A construção de algo que, tal como a cadeira da verdade, pode ser verdadeira ou não, essa cadeira é apenas um dispositivo, que nos mostra que o ato de partilhar é mais importante do que saber se é verdade ou não.


Uma história não se esgota no seu grau de veracidade.


Pausa para almoço.


Depois, o encontro com a instalação de Miguel Refresco: “Porque é que aqui o guardanapo é de pano e temos de o colocar no colo? Com alguma relutância, posso dizer-te que há locais onde devemos agir com formalidade e convencionou-se que nestes contextos, sendo de pano, o guardanapo havia de estar sobre as pernas”. Aqui, já sentados, podemos refletir sobre convenções sociais enquanto os elementos naturais a enformam. A areia não é apenas areia. A luz do sol, tal como as convenções, também desaparece quando já não é necessária. O texto desta instalação remete-nos para um quotidiano ao mesmo tempo que há uma partilha de alguém que detesta mesas na diagonal nos cafés.


É hora de levantar, preparar as sapatilhas e levar cimento.


Mudança de media. Já não estamos numa sala de ensaio. Já não é uma galeria de um museu.


Carminda Soares, no seu audiowalk, começa: “Construir um bunker dentro da minha cabeça. Bem lá no fundo do cérebro, um bunker. Podem tocar à campainha, gritar, chamar por mim, estou dentro dum bunker. Dentro da minha cabeça ninguém me encontra.” E daqui, o público é convidado a correr pelas ruas da cidade, enquanto o texto é sussurrado a cada um durante o percurso. Passam pelo estádio com luz rosa para auxiliar no processo de crescimento da relva, passam pela tendo do circo, passam pelas traseiras do circo até à camioneta, que os leva de volta ao ponto de encontro. Carminda leva o seu público atrás dela a correr, e o texto corre nos ouvidos dos espetadores. A mistura das ruas da cidade e dos locais por onde passam leva o público, aquele coletivo, à exaustão. O texto, também ele, repercute a exaustão, terminando: “Há um sistema de poder em todas as parte do mundo. Uns acima dos outros. Mortes que valem menos que outras”.


A camioneta chegou.


Da camioneta passamos para a cadeira. E da cadeira Catarina Real termina o primeiro dia com a apresentação do seu livro. Livro esse que parte para a construção experimental de uma narrativa através de recortes de uma coleção de suplementos culturais do Ípsilon, suplemento do jornal Público. Recortes que a autora partilha, agora em livro, mas cuja composição permite novas leituras; um trabalho que evoca, numa certa medida, a obra de Ana Hatherly, deixando-nos olhar para o texto de uma forma mais experimental, numa combinação de palavras para criar uma outra coisa que vai para além do seu significado.


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Artwork © Jani Nummela

 


Manhãs.

As manhãs deste encontro, a partir daqui, repetem-se até ao dia da apresentação do produto “final” , no domingo, com Daniel Pizamiglio.


Olhar externo.


“Olhar para o outro como se fosse a primeira e a última vez”, propõe Daniel Pizamiglio.


As pessoas dançam. Eu escrevo.


Sobre.

Sobre diferença do outro.

Sobre dois encontros. Um em 2009 e outro em 2019.

Sobre composição em tempo real.

Sobre olhar como se fosse a primeira vez.

Sobre olhar como se fosse a última vez.

Sobre repulsa.

Sobre novas formas de estar-juntos.


O que é olhar para as coisas como se fosse a última vez?

Um encontro de partilha, papel e caneta.


Pausa para almoço.


O próximo encontro é sobre colecionar.



Pedro Augusto (arquivo 'Found Tapes' Porto): “Trata um conjunto de resíduos fonográficos derivados do suporte áudio-magnético, habitualmente designado por cassete, recoletados das ruas da cidade entre 2004 e 2019.” Durante a performance, escutamos alguns destes registos: a mítica música "Lambada" parece ser uma constante em várias das cassetes, mais naquelas que são encontradas na praia, na verdade, nas fitas encontradas pelo artista. Dentro do seu espólio: “Há músicas de diversos estilos e épocas, gravações caseiras, cursos de línguas ou até gravações de memory data, como jogos ou software.” A extensão da fita corresponde a um determinado tempo de gravação. A fita, nas mãos do público, é tempo sonoro gravado. Sons que persistem no tempo através da fita para poderem ser re=iniciados quando ativados novamente.


Desligamos a música de Kaoma. Agora vamos jantar.


Espectáculo da noite.


Passamos para Banquete (Júlio Cerdeira): “Olhar sobre o corpo humano como matéria desantropomorfizada, um despir consecutivo da pele dos corpos, que a cada camada se mostram menos escurecidos e mais pigmentados.” Com efeito, o criador propõe uma nova visão sobre o corpo, nomeadamente através da justaposição de dois corpos. A influência de criadores como Marlene Freitas Monteiro e Dimitris Papaioannou no trabalho revela-se através de alguns gestos em cena. Uma proposta que torna a luz o elemento principal neste jogo do esconder–revelar, enquanto os dois corpos comunicam entre si e colocam em evidência a violência de um sobre o outro.


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Artwork © Jani Nummela

 


“O meu medo.

Eu acho que não é um medo.

Os nossos corpos não duram para sempre.

Entre corpo e subjetividade.

Entre subjetividade e tecnologia.

Onde é que acaba uma coisa e começa a outra?”


A nossa tarde começou com Joclécio Azevedo, numa espécie de tratado entre arte e tecnologia. Através do texto, em vários media, e criado de diversas formas, o criador questiona-se sobre a utilização da tecnologia em todas as dimensões da nossa vida. O interessante aqui é que o criador não dá respostas, mas faz perguntas. Questiona, junto de nós, e num movimento de proximidade – no final, a filmagem é apenas a sua boca enquanto diz um texto, também ele com o auxílio da tecnologia – uma alusão que poderíamos associar a Beckett, mas que, na verdade, é uma utilização da tecnologia em prol de um discurso que vai vivendo na peça. Como se não bastasse, Joclécio tem também uma proposta de expansão. O texto que é dito, e projetado, perde as suas características de informação, passando a cenografia; aliás, como defende Rachel Hann na sua obra sobre a cenografia expandida, podemos atestar que a cenografia, por vezes, não é palpável. As ideias e os pensamentos, apesar de terem um medium, não é obrigatório que sejam usados apenas de uma forma.


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Artwork © Jani Nummela

 


O Coletivo Suspeito tinha como proposta: “um espaço liminar entre cumplicidade e contemplação”. Para tanto, através de aparelhos eletrónicos aplicados numa parte do corpo da pessoa que o quisesse utilizar, esse mesmo corpo, através do movimento, distância do recetor, e intensidade, criava uma paisagem sonora. Aqui, neste espaço, o criador convoca a sua coreografia, ou apenas movimentos que improvisa para os partilhar de forma externa e, de imediato, recebe um estímulo da máquina. A partir daqui, a relação é construída pela interação estabelecida entre quem mexe e a máquina que reage, por vezes em duplas, onde há uma nova camada, os dois corpos que interagem e criam um jogo, sendo certo que o olhar de ambos também é influenciado pela reação da máquina. Uma espécie de tradução de movimento para som. Universo que foi explorado por outra criadora, mas que não está neste dia. Por agora, resta-nos devolver o equipamento para irmos à multiversidade.


Saída.


Há uma coisa certa quando entramos num espaço criado por Rogério Nuno Costa: qualquer coisa pode acontecer. Aliás, para quem acompanha o seu trabalho, sabe que ele pode “ir a nossa casa”. Pode cozinhar para nós. Também pode aparecer noutras criações sobre festas de anos. Ou pode surgir como júri de um espetáculo sobre Eurovisão. Ou pode estar todo vestido de verde. Pode estar a falar, ou pode estar em silêncio. Pode apenas estar. Um trabalho dele não se esgota no texto, na forma ou no local. Rogério trabalha em qualquer lugar, e, por isso, nada melhor que estarmos, agora, num tempo qualquer. Podemos escolher se é agora, se será daqui a muitos anos, ou se até já foi num tempo passado (e encontramo-nos, agora, numa espécie de eco do passado). Rogério não tem a intenção de um tempo. A multiversidade ainda não tem espaço. Mas espera vir a ter. Mas não faz questão que tenha. A explicação é complexa, mas Rogério explica-a detalhadamente, numa autêntica tese; uma tese que, não obedecendo à série de formalismos que o ritual tese obriga, é então a especulação de uma tese. Mas na verdade é uma tese. Ele escreveu. Ele citou. Ele relacionou. E questionou. Até que ponto este “oficial”, este “académico”, este “a sério” vai ficar preso a uns monumentos brutos, que, como bem sabemos, estão podres? Tal como o rei vai nu, também sabemos que a universidade vai nua. E devemos continuar a perpetuar esta ideia de sabedoria centrada apenas num lugar? A autora norte-americana Michelle Visage é peremptória: "Não". A universidade não pode continuar a aparecer em todos os locais como um pedaço de tecido. Porque é apenas isso. E um pedaço de tecido não é um vestido”. Tal como a universidade não devia ser apenas calças e gravatas; mas isto das roupas é muito mais complexo... Complexo é também o pensamento de Rogério (nota de rodapé: Isto é dito porque sim): “O texto que estou a ler é uma emanação, etérea e intangível, da tese que não vou, não quero, ou não posso ler, e projeta-se em várias direções temporais e emocionais: para trás dela, para a frente dela, para dentro dela. Nunca por causa dela. Nunca sobre ela. O avesso da tese”. Podem agora jogar pedra, tesoura e papel. Eu ajudo: na próxima jogada vou escolher papel. No meio do aleatório, pode saber bem uma certeza.


Pausa para jantar e pensar.


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Peça da noite.

[Nota: neste espectáculo eu participei como intérprete. Portanto, o que vão ler a seguir não é um olhar de fora, exterior. É um olhar de dentro.]


“Trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar. As preocupações são aflições do espírito adaptadas à era capitalista. Não estamos mais preocupados com os devaneios, as angústias e com o mistério da existência. Nossas preocupações são as preocupações da agenda, se iremos ter aonde morar, se iremos ter onde dormir e se iremos ter o que comer. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar.”


Estas são as primeiras palavras que Vinicius Massucato entrega ao público.


Eu espero.

Ele parte a cadeira.

Eu espero.


Conheço o Vinicius há muitos anos. Mas hoje não o vejo de fora. Hoje é para performar com ele.

Ele continua a falar. Há texto na tela. Conheço-o há tantos anos, já o vi fazer tanta coisa, e hoje estou aqui. À espera. Uma flor. Uma mochila. Um casaco.


Chegou a deixa.


O beijo aconteceu. O texto foi dito. A música acabou.


No fim, alguns dos primeiros comentários são sobre o beijo. Perguntei-me, assim como quem não quer a coisa, quantas vezes vi beijos normativos em cena serem tão comentados. Não me recordo de nenhum. Duas pessoas lidas como homens em cena a beijarem-se, parece, ainda, ser necessário. É um ato político.


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Artwork © Jani Nummela

 

Maria R. Soares e Antonio Marotta exploram som e movimento. A proposta é criar “paisagem onde som, espaço e gesto se diluem numa só matéria, numa invocação aos grandes vazios cósmicos. Vazio como potencial lugar não rígido onde o inesperado pode tomar forma e revelar-se.” O dispositivo proposto coloca Maria a comunicar através de dois media: o seu corpo e o movimento do seu corpo que provoca um som. Isto leva-nos a meditar sobre as potencialidades de movimento e som, remetendo para um ambiente contemplativo sem forma. Uma espécie de voltar à caverna onde o gesto primitivo não se esgota em si mesmo, mas deixa um lastro sonoro com uma determinada qualidade. Um espaço que reverbera no público de diferentes formas. Um objeto que não pretende ser mais do que é: um exercício de expansão do medium som aliado à géstica da dança, e cujo resultado não é um fim, mas um processo.


Pequena pausa.


Mariana Tengner Barros surge em cena.


Sentimos uma conexão.


Sentimos que não há uma vontade de binarizar. Tudo é fluido, tal como o movimento do saco. O som do saco, é também ele uma ode. Há o gesto de Mariana. A cor do espaço cénico. Uma canção.


A pretensão é ser uma ode e a criadora surge-nos como uma criatura marítima que transmite melodias. Será a letra importante? Quererá remeter para um espaço aquático do futuro? A criadora indica que são “práticas de estados de espírito e a sua relação com o estado das coisas.” E nós estamos com ela. Nessa exploração, nessa expansão.


Já não é apenas dança. Isto podia ser um número de uma drag queen. Ou podia ser outro local qualquer. É sobre transformação. Sobre constante devir e ser. Liberta. E liberta os outros dos fardos da interpretação. No fim, o melhor: um Adeus Performativo.


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Artwork © Jani Nummela

 

Olhar interno.


Se num primeiro momento elas dançavam e eu escrevia, hoje foi dia de dançar com estas pessoas: Daniel, Susana, Carminda, dois Diogos e Andresa. Numa pequena apresentação sobre o resultado final do workshop conduzido pelo Daniel Pizamiglio ao longo de toda a semana do Encontro, o nosso objetivo tinha uma pequena partitura: desconhecido, check in do nosso dia, procurar o outro. Foi sobre partilha dos corpos e sobre desconhecer esse mesmo corpo. Foi sobre gestos, foi sobre lembrar e esquecer, e voltar a aprender esses mesmos gestos. Foi sobre seis corpos que partilham um espaço expandido com o público, e vão procurando e esquecendo, até chegarem a uma conclusão, rítmica, onde a conexão entre os corpos parece evidente.


Pausa.


Tiago Rosário, através da instalação vídeo "R-RE-RES-REST-RESTA-RESTAR-RESTART", coloca uma série de imagens em relação e em repetição. Uma clara alusão à forma como as notícias são dadas, mastigadas, e repetidas novamente. “Quantas vezes veremos algo? Quantas vezes veremos algo novo? Quantas vezes veremos algo novo novamente?” E a nossa experiência enquanto público, junto de símbolos tão fortes (como os quadrados com imagens em movimento do Zoom e a memória da pandemia), é de refletir sobre os papéis dos media na era da (des)informação. Sobretudo, tendo em conta o cariz e o aproveitamento de algumas notícias, a pergunta é mesmo essa: quantas vezes veremos algo novo (mas que é o mesmo) novamente?


Pausa para almoço.


Corpo acusa algum cansaço.


Assim que Filipa Duarte surge em cena há uma coisa inegável: a presença da criadora é avassaladora. Dotada de uma técnica e géstica da dança irrepreensível, Filipa consegue ir mais longe e mostrar também um lugar de partilha e vulnerabilidade. Utilizando açúcar, flores e objetos do cotidiano, ao mesmo tempo que estende uma grande folha em branco à frente dxs espetadorxs, Filipa permite que o público se inscreva naquele espaço. Um objeto cénico que está em devir e transformação constante. O trabalho é especialmente curioso, porque se tratar de alguém que esteve a desempenhar funções de produção para o Encontro, ao mesmo tempo que preparava esta apresentação. E, nessa contaminação de dois mundos, vamos entendendo um pouco melhor o entendimento de Vânia Rodrigues (uma das pensadoras ativas da produção em Portugal) sobre o conceito de produção-criativa. Filipa demonstra que os papéis de bailarina, criadora e produtora não são estanques. Ela consegue, através daquela mesma folha em branco, demonstrar que (re)imaginar a nossa história ou criar narrativas é um exercício amplo, e que pode ele também ser partilhado: “Quero realmente dizer alguma coisa mas, por medo, oculto a última palavra porque não tenho coragem de a exteriorizar e culpo a falta de tempo com um descaramento cobarde. E quanta impertinência eu escrever isto. Para depois o dançar. Ou depois de o dançar. Ou a dançar.”


Pausa.


O trabalho de Andresa Soares deu-me luta no processo da escrita. Tinha muitas questões: Escrevo só a partir do que vi? Escrevo depois de ler o texto que era dito aos performers que atuaram para nós? Como posso escrever sobre pessoas que estiveram a semana toda a conviver connosco, cada uma no seu universo, e agora se justapõem para criar a peça da Andresa? A resposta demorou, mas chegou. Escreverei a partir da visão e não do texto.


A escrita não leu o texto. Foi uma decisão.


Vários são os criadores que estão aqui: Susana Otero, Miguel Pereira, Rogério Nuno Costa, Filipa Duarte, Daniel Pizamiglio, Diogo M. Santos, Margarida Montenÿ, Maria R. Soares, Carolina Canteli. Quase todos são participantes do Encontro; quem viu os seus trabalhos, sabe quão diferentes são os universos criativos de cada um. E isso traz camadas à visualização esta performance: conhecer o trabalho de cada participante e ver, agora, como o mesmo estímulo textual pode trazer resultados tão distintos àqueles corpos. É irrelevante a questão da distinção entre performer, bailarino, atriz... Na verdade, não há etiquetas aqui. A experiência estética do objeto baseia-se numa suspensão da crença: acreditamos que todos os áudios estão sincronizados e que, muito provavelmente, cada uma das pessoas que ouve se esquece que tem um público. No final, fica a dúvida sobre a duração do dispositivo, mas a certeza que os participantes foram muito generosos no seu contributo.


Pausa.


Último trabalho.


Uma sala cheia de cadeiras.

Uma sala cheia de cadeiras e Valentina Parravicini está lá.

Uma sala cheia de cadeiras e Valentina vai nomeando cada uma das cadeiras.


Seguindo a pergunta “o que faz uma bailarina quando o coreógrafo não está presente?”, a criadora evoca uma série de memórias e leva-nos consigo para o seu universo criativo e para algumas das suas inquietações.


Uma sala cheia de cadeiras.

Uma instalação de cadeiras.


A criadora dança. Ela monta. As cadeiras estão num limbo de equilíbrio. Ela dança.


Há uma evocação de memórias e documentações que não são materiais. Há apenas uma sala cheia de cadeiras vazias.


Ela dança.

Ela terminou.


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Diogo Sottomayor

 

Artwork © Jani Nummela





Álbum de Recordações

(diário vídeo-fotográfico produzido pelo Colectivo Suspeito durante o Encontro)




"ZAUMFLUX", de Henrique Fernandes (registo vídeo de Colectivo Suspeito, 2 de novembro de 2022)


"Ensaio dirigido a...", de Andresa Soares (registo vídeo de Colectivo Suspeito, 6 de novembro de 2022)

 

Artwork © Jani Nummela

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